Um Programa da SBPC-RJ: a Ciência Vai à Escola
José Leite Lopes
O problema da educação tem alta prioridade em nosso país.
O ensino nas Universidades como nos estabelecimentos do 1º e 2º graus deve tornar-se acessível ao maior número possível de brasileiros - sobretudo no nível da educação básica - e sua qualidade deve melhorar continuamente. Tarefa de vários anos, de várias gerações, pois as que nos antecederam não deram a esta questão a importância que ela sempre teve. Os nossos líderes políticos, empresários e mesmo os nossos economistas não deram à formação adequada dos trabalhadores, dos técnicos, dos cientistas, do cidadão brasileiro em geral, o lugar de relevo para o desenvolvimento econômico do país. Entretanto, a mão de obra barata cede sua posição privilegiada à mão de obra qualificada, treinada para as antigas e as novas tecnologias e, de súbito, se vê o País despreparado para o século XXI que já está entre nós.
A Universidade herdou do movimento de rebelião estudantil de 1968 na França, a idéia de que os Reitores devem ser escolhidos por eleição na Universidade, com voto de igual peso para estudantes, funcionários e professores. Esta prática foi abandonada na França e nos demais países Europeus, pois dava lugar a programas demagógicos, com promessas de aumento no quadro dos funcionários, refeições baratas, etc. Compreenderam os europeus, como há cerca de cem anos, após o famoso relatório Flexner que modificou as universidades nos Estados Unidos, os americanos, que no domínio do saber, no ensino e na geração dos conhecimentos, impõe-se necessariamente hierarquia. Inoperante, ridículo, ineficaz o tratamento específico igual para aqueles que têm níveis diversos de conhecimento e de atividades, por isso mesmo, as universidades americanas são certamente as mais eficientes, os professores iniciam sua carreira universitária trabalhando por períodos em diferentes universidades, e só adquirem estabilidade após longo trabalho de ensino e pesquisa, quando se fixam como Associate Professor de dada universidade.
Não temos esta tradição em nossas universidades que datam essencialmente de 1934. Entre nós, é comum um jovem que faz seu curso numa dada universidade e nela ingressa como professor universitário, é promovido periodicamente e lá fica para o resto da vida. Falta, assim, a troca salutar de idéias, falta o estímulo à promoção oferecida por outra universidade e, em geral, o entrevamento, a artrose intelectual é facilitada mais cedo.
Pareceu-me acertada a medida do Governo ao fixar em 70% o peso relativo dos votos dos professores dos Conselhos Universitários onde então haveria representação dos 30% restantes para estudantes e funcionários eleitos para os referidos Conselhos.
Outra questão importante é a melhoria da qualidade do ensino. Nas Universidades, os professores e pesquisadores deveriam ser estimulados a escrever livros sobre assuntos de suas disciplinas para uso dos estudantes universitários do país, obras em que se tratam as contribuições à ciência - como à cultura - antigas e novas, de modo claro, preciso e estimulante.
Igualmente, os professores universitários, os pesquisadores, deveriam escrever livros para o ensino na educação básica, deveriam reunir-se periodicamente para avaliar a qualidade dos livros em circulação, discutir e modernizar os programas das disciplinas ensinadas nos estabelecimentos de educação básica - assim como nas universidades.
A ciência não para, novas descobertas acontecem continuamente nos laboratórios e nos gabinetes de trabalho no mundo inteiro, e é do maior interesse torná-las parte dos programas de ensino rapidamente.
Finalmente, gostaria de falar de uma iniciativa que tomou a Seção Regional da SBPC (Sociedade Brasileira para o Procrresso da Ciência) para fazer com que professores universitários e pesquisadores na área das ciências façam palestras nos estabelecimentos de educação básica, sobretudo nos de 2º grau. Incumbiu-me a SBPC-Rio de ser o Coordenador Científico do Programa: A Ciência vai à Escola, o Professor Ronald Shellard é o Secretário Científico. Deste programa geral - que na França teve início per ação do Professor Pierre Gilles de Gennes, Prêmio Nobel de Física e nos Estados Unidos é impulsionado por inúmeros físicos, entre os quais o Prêmio Nobel Leon Lederman, dei conhecimento ao Ministro da Educação.
Este programa já teve início no Rio de Janeiro e atualmente há mais de cinqüenta pedidos de colégios para receberem cientistas: matemáticos, físicos, químicos, biologistas, etc. para palestras para seus estudantes. Pedidos do Estado do Rio de Janeiro e até de São Paulo, do Rio Grande do Norte e de Brasília. 0 telefone de contacto é: (021) 295 4846, Sra. Maria Luiza.
Acredito que se este Programa se intensificar haverá resultados positivos, pois os nossos jovens estudantes do ensino básico de hoje serão os cidadãos de amanhã, serão não apenas cientistas, mas empresários, políticos, economistas, advogados, engenheiros, técnicos e é importante que eles saibam que o Universo em que vivemos não é um mundo de bruxarias, de feitiçarias, é um mundo regido por leis científicas, precisas, inexoráveis e que revelam a beleza que descobriu a humanidade ao buscar uma interpretação racional da Natureza.
Como a arte, como a poesia, como a filosofia, a ciência também tem sonhos que encantam a nossa vida. E os sonhos dos cientistas, alguns dentre eles, se revelam como uma descrição correta do mundo - um milagre que nos encanta e nos faz felizes.
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